Quero envelhecer

Quero, sim, envelhecer,

Sem ter que me esquecer

Do tempo do meu passado,

O canto puro do meu viver.

Quero fechar meus olhos

E espantar todas as dores,

Os abrolhos da maldade,

Os choros e os dissabores.

Quero envelhecer, lentamente,

Sentindo em todos os momentos

O gosto da emoção ainda quente

Pulsado pelos meus sentimentos.

Quero correr os campos da vida

Saboreando todos os seus instantes,

Assim como uma estrada infinda

Conquistada por passos gigantes.

Quero tomar meus remédios,

Sem tédio ou sem obrigação,

Ver o sol, ler e fazer poemas,

Sem ser escravo da televisão.

Quero ver os passarinhos cantando

Na copa da mata, sem devastação,

Lembrar os dias, os meses e o ano,

Com a saudade dentro do coração.

Quero envelhecer ainda vendo:

As crianças e as pessoas sorrindo,

Os ares e os mares não poluídos,

A ganância e a inveja diminuindo.

As escolas abertas e estruturadas

Os professores bem remunerados,

As repartições em mãos acertadas

Os hospitais tão bem equipados.

E, ainda, tomar água bem tratada,

Bem ao lado da minha cabeceira,

Seja do pote ou de um olho d’água

Partes da minha estória verdadeira.

Quero envelhecer até morrer

Mas nunca deixar de ter o prazer

De ter ao meu lado a minha família,

Meus amigos e o meu jeito de ser.

(José Ventura Filho)